Tema do 60º Dia Mundial da Paz: Desarmar tecnologia para a paz
O Dicastery for the Service of Integral Human Development anunciou o tema do 60º Dia Mundial da Paz: “Desarmar Tecnologia, Servir a Paz: Política como Responsabilidade Preventiva”. Pope Leo XIV destacou a responsabilidade moral dos atores políticos e instou ao desarmamento da tecnologia, especialmente AI, para salvaguardar a dignidade humana e a paz. O tema se baseia na encíclica Magnifica humanitas, onde o Papa alertou que nenhum algoritmo pode tornar a guerra moralmente aceitável e pediu acordos internacionais que protejam os princípios humanitários. Pope Leo enfatizou que a inteligência artificial deve ser direcionada ao bem comum, recorrendo à sua experiência no Peru e ressaltando que as decisões tecnológicas devem ser guiadas pela consciência e responsabilidade.
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O Dia Mundial da Paz, que será celebrado em 1 de janeiro de 2027, tem como tema “Desarmar a tecnologia, servir a paz: a política como responsabilidade preventiva”, escolhido pelo Papa Leão XIV para destacar a responsabilidade moral dos agentes políticos e a necessidade de garantir que a inteligência artificial (IA) não comprometa a dignidade humana nem a paz mundial. 1
O Dicastero para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral divulgou o tema para a 60ª edição do Dia Mundial da Paz, enfatizando que a data será usada para promover acordos internacionais que preservem a responsabilidade humana em contextos de risco de conflito. 1
Segundo o Papa Leão XIV, os líderes políticos têm a obrigação de agir preventivamente, evitando que tecnologias avançadas sejam empregadas para fins bélicos. Ele ressalta que a política deve ser guiada por princípios de justiça e dignidade humana. 1
Na encíclica Magnifica humanitas (parágrafo 198), o Papa afirma que “não existe algoritmo que torne a guerra moralmente aceitável”, alertando sobre os perigos de delegar decisões militares a sistemas de IA. 1
Leão XIV utiliza o termo “desarmar” para a IA, reconhecendo sua força comunicativa e a necessidade de chamar a atenção global para os riscos associados ao uso bélico da tecnologia. Ele compara esse desarmamento ao histórico compromisso da Igreja com o desarmamento nuclear. 1
O Papa lembra sua experiência missionária no Peru, destacando que a reconstrução pós‑desastre envolve reparar laços sociais e restaurar esperança. Ele propõe que o desenvolvimento da IA seja um esforço colaborativo entre designers, usuários, países ricos e pobres, e instituições, visando o bem de toda a família humana. 1
O tema escolhido para o Dia Mundial da Paz de 2027 reforça a mensagem de que a tecnologia, especialmente a IA, deve ser regulada e orientada por princípios éticos e responsabilidade política, a fim de servir à paz e à dignidade de todas as pessoas. 1
Desarmar IA para proteger a dignidade humana e a paz
“Desarmar a inteligência artificial” não significa necessariamente abolir a tecnologia, mas libertá-la das lógicas de dominação, exclusão, manipulação e morte. Significa garantir que a inteligência artificial permaneça subordinada à consciência humana, à responsabilidade moral, à justiça e ao bem comum. Essa é a preocupação central expressa pelos Papas Francisco e Leão XIV: o progresso tecnológico só é verdadeiro quando promove a dignidade de todas as pessoas e contribui para a paz.
A inteligência artificial pode trazer benefícios importantes: facilitar o acesso ao conhecimento, melhorar a educação, apoiar a agricultura, favorecer a comunicação entre povos e contribuir para o desenvolvimento integral. Porém, seus efeitos não dependem apenas da capacidade técnica dos sistemas, mas também dos objetivos de seus proprietários, desenvolvedores e usuários. Por isso, não se pode presumir automaticamente que toda inovação produzirá benefícios para a humanidade.
O critério decisivo não é perguntar apenas se uma ferramenta é mais rápida, eficiente ou lucrativa. A pergunta mais profunda é: essa tecnologia torna a pessoa mais livre, mais responsável, mais aberta à verdade e mais solidária com os vulneráveis? O Papa Francisco recorda que o desafio último não é simplesmente tecnológico, mas humano: saber se, em meio ao avanço das máquinas, o ser humano está se tornando “mais espiritualmente maduro, mais consciente da dignidade de sua humanidade, mais responsável e mais aberto aos outros”.
A visão cristã rejeita tanto o tecnofobismo — o medo indiscriminado de toda tecnologia — quanto o tecnicismo, que trata a eficiência como o valor supremo. A tecnologia é uma realidade ambivalente: pode servir ao amor e ao desenvolvimento ou transformar-se em instrumento de controle e violência, conforme a orientação moral do coração humano.
Um dos riscos mais graves da inteligência artificial é transformar a pessoa em um conjunto de informações estatísticas. Sistemas automatizados podem ser usados para avaliar pedidos de crédito, contratação profissional, acesso a benefícios sociais, concessão de asilo ou risco de reincidência criminal. Quando os dados contêm preconceitos ou erros, os algoritmos podem multiplicar injustiças e produzir desigualdades em escala social.
A pessoa humana, porém, não é um perfil, uma pontuação ou um padrão de comportamento. Ela possui uma história singular, liberdade, capacidade de conversão e abertura à graça. Por isso, não se pode permitir que algoritmos determinem por completo a compreensão dos direitos humanos, eliminem a misericórdia ou impeçam alguém de mudar e deixar para trás o próprio passado.
A dignidade exige, portanto:
Não basta afirmar que um sistema é “neutro” porque utiliza cálculos matemáticos. Os algoritmos refletem escolhas humanas: quais dados são recolhidos, que objetivos são priorizados, quais critérios são considerados relevantes e quem se beneficia dos resultados. A inteligência artificial, portanto, precisa ser submetida a uma avaliação ética desde a pesquisa até o desenvolvimento, a comercialização e o uso cotidiano — uma verdadeira ética desde a concepção.
Uma máquina pode selecionar uma opção com base em regras ou probabilidades. Isso é diferente de uma decisão humana, que envolve discernimento, prudência, responsabilidade e consideração pelo bem concreto das pessoas. A prudência — ou phronesis, isto é, a capacidade de julgar corretamente em situações concretas — não é mera eficiência computacional.
Por isso, as decisões que afetam profundamente a vida e a liberdade das pessoas não podem ser simplesmente delegadas a máquinas. O Papa Francisco adverte que retirar do ser humano a capacidade de decidir sobre a própria vida seria condená-lo a um futuro sem esperança. A dignidade humana exige um espaço real e efetivo de controle humano sobre os sistemas de inteligência artificial.
Esse princípio é especialmente importante em áreas como:
A supervisão humana não deve ser meramente simbólica, como quando uma pessoa apenas confirma automaticamente o resultado produzido pela máquina. Deve haver competência, autoridade e tempo suficientes para questionar, corrigir ou interromper o sistema.
A aplicação militar da inteligência artificial apresenta uma ameaça singular. Sistemas autônomos letais podem identificar alvos e decidir sobre o uso da força sem uma intervenção humana significativa. O problema não é apenas técnico: uma máquina não possui consciência moral e não pode ser sujeito responsável por uma decisão que envolve a vida de uma pessoa.
A posição apresentada nas fontes é clara: nenhuma máquina deve escolher tirar a vida de um ser humano. O Papa Francisco pediu que o uso de armas autônomas letais seja finalmente proibido e que se estabeleça um controle humano efetivo, concreto e permanente sobre os sistemas de armamento.
O Papa Leão XIV relaciona essa questão ao conceito de uma paz “desarmada e desarmante”. Ele denuncia a tendência de líderes políticos e militares transferirem para máquinas a responsabilidade por decisões de vida e morte. Essa transferência representa uma grave ruptura com os princípios humanistas que sustentam a civilização e pode ocultar a responsabilidade daqueles que projetam, autorizam e empregam tais sistemas.
A paz não pode ser construída simplesmente com armas mais precisas ou guerras mais automatizadas. Uma tecnologia que torna a violência mais distante, rápida e impessoal pode diminuir a percepção da responsabilidade e do sofrimento causados. Por isso, as tecnologias mais avançadas devem ser orientadas para prevenir conflitos, proteger vidas e favorecer a cooperação, não para facilitar a resolução violenta das disputas.
Outro modo de “desarmar” a inteligência artificial consiste em impedir que ela seja usada para manipular a consciência e destruir a convivência social. Sistemas generativos podem produzir textos, imagens, vídeos e áudios falsos extremamente convincentes. Os chamados deepfakes podem atribuir a uma pessoa palavras que ela nunca pronunciou ou apresentar acontecimentos inexistentes como se fossem reais.
Esse fenômeno produz uma espécie de “poluição cognitiva”: a realidade é deformada por narrativas falsas que circulam como verdadeiras. O resultado pode ser a polarização política, a difamação de pessoas, a perseguição de grupos, a erosão da confiança pública e a incapacidade de distinguir informação confiável de propaganda.
A inteligência artificial também pode influenciar escolhas mediante estímulos, filtros, recomendações e mecanismos de direcionamento comportamental. Quando isso é empregado para controlar populações, vigiar cidadãos ou estabelecer sistemas de classificação social, a tecnologia passa a ameaçar a liberdade e a igualdade.
Desarmar a comunicação digital requer:
Leão XIV resume essa exigência com um princípio de grande alcance: desarmar as palavras é contribuir para desarmar o mundo. A comunicação cristã não deve ser agressiva, ressentida ou fanática, mas orientada à verdade, à escuta e à paz.
A inteligência artificial também pode aprofundar desigualdades econômicas. A automação pode substituir atividades humanas e concentrar benefícios nas mãos de poucos, enquanto muitos trabalhadores enfrentam desemprego, precarização ou perda de renda. Por isso, a dignidade do trabalho, a segurança profissional e os salários justos devem permanecer prioridades da comunidade internacional.
A Igreja não avalia a tecnologia apenas pela produtividade. A economia deve estar a serviço da pessoa, da família e da sociedade, e não o contrário. Uma inovação que aumenta a riqueza geral, mas exclui sistematicamente os trabalhadores e empobrece comunidades inteiras, não pode ser considerada progresso integral. O desenvolvimento deve incluir os vulneráveis e assegurar que os frutos da tecnologia sejam partilhados de maneira justa.
Na educação, o desafio é ainda mais profundo. Ter acesso a grandes quantidades de informação não é o mesmo que possuir sabedoria, discernimento ou capacidade de encontrar sentido. Os jovens precisam aprender a usar as ferramentas digitais com inteligência própria, abertura à verdade, vida espiritual e responsabilidade fraterna.
A educação deve formar pessoas capazes de:
A tecnologia deve ser humanizada: não uma jaula, uma fuga ou um vício, mas um espaço de fraternidade e criatividade.
Nenhum governo, empresa ou grupo de especialistas pode resolver sozinho os desafios da inteligência artificial. A escala global da tecnologia exige cooperação internacional, regras comuns e mecanismos de fiscalização. O Papa Francisco defendeu um tratado internacional vinculante que regulamente o desenvolvimento e o uso da inteligência artificial, não apenas para impedir abusos, mas também para promover boas práticas.
Essa regulamentação deve envolver cientistas, engenheiros, juristas, educadores, trabalhadores, famílias, comunidades religiosas e, sobretudo, os pobres e aqueles que normalmente não têm voz nos processos decisórios. A paz é fruto de relações que reconhecem a dignidade inviolável de cada pessoa e buscam o desenvolvimento integral de todos.
Do ponto de vista cristão, a responsabilidade é simultaneamente política, empresarial, educativa e pessoal. Cada usuário deve perguntar:
A inteligência artificial deve ser desarmada no sentido mais amplo: desarmada de sua pretensão de governar a pessoa, de sua capacidade de aprofundar desigualdades e de seu uso como instrumento de guerra, vigilância e manipulação. Isso exige leis justas, controle humano, responsabilidade econômica, educação crítica e uma cultura de paz.
A razão última dessa exigência é a dignidade da pessoa humana. Como ensina Leão XIV, nenhum sistema computacional, por mais sofisticado que seja, pode criar um coração capaz de se doar ou uma consciência capaz de discernir o bem e o mal. A eficiência da máquina jamais substitui o rosto humano, a liberdade, a compaixão e a responsabilidade.
O verdadeiro progresso será aquele em que a inteligência artificial não competir com a humanidade, mas servir ao seu melhor potencial; não concentrar poder, mas promover o bem comum; não decidir quem deve viver ou morrer, mas ajudar a proteger a vida; não destruir a verdade, mas favorecer uma comunicação responsável; não excluir os fracos, mas incluí-los.
Desarmar a IA é, em última análise, recolocar a técnica em seu devido lugar: como instrumento a serviço da pessoa humana, da fraternidade e da paz.