De Lourdes, Papa Leão rejeita contundentemente a lei francesa sobre morte assistida
Ao pregar aos enfermos, às pessoas com deficiência e àqueles que cuidam delas em um dos santuários mais emblemáticos do catolicismo, Papa Leão XIV disse que “nenhuma lei humana deveria jamais fazer vocês perderem a certeza de sua dignidade”.
1 day ago
Em Lourdes, em 27 de setembro de 2026, o papa Leão XIV condenou a eutanásia e o suicídio assistido, em uma crítica à recente legalização dessas práticas na França. Ele afirmou que a dignidade humana exige rejeitar a morte apresentada como compaixão e pediu que a medicina se dedique a cuidar dos doentes, ampliar os cuidados paliativos e acompanhá-los com ternura. 1 2 5
Durante um encontro com doentes e cuidadores no centro Accueil Notre-Dame, no santuário de Lourdes, Leão disse que nenhuma lei deve levar uma pessoa a duvidar de sua dignidade. “É impossível considerar normal causar a morte”, afirmou, acrescentando que algo ser legal não significa que seja moral. Suas declarações foram recebidas com aplausos e gritos de aprovação. 2 5
O papa se referiu à lei francesa aprovada naquele verão, que legalizou o suicídio assistido e a eutanásia em determinadas situações. As reportagens distinguem as práticas: na eutanásia, outra pessoa encerra intencionalmente a vida do paciente; no suicídio assistido, o próprio paciente toma a substância letal com orientação médica. 2 5
Leão pediu aos profissionais de saúde que cuidem de quem sofre, em vez de eliminar essa pessoa, e os exortou a ser “servidores apaixonados da vida”. Também defendeu o desenvolvimento de estruturas e pesquisas em cuidados paliativos e o acompanhamento dos doentes com a atenção e a ternura demonstradas em Lourdes. 2 5
Dirigindo-se aos doentes, o pontífice afirmou: “Vocês não são um fardo”, mas “o coração pulsante da nossa humanidade” e um tesouro para a Igreja. Ele também disse que pessoas doentes e com deficiência têm um papel insubstituível na comunidade e que seu sofrimento pode ser vivido como oferta, participando da obra redentora. 1 2
Na missa campal do mesmo dia, Leão apresentou Lourdes como um lugar onde a vida é acolhida como dom de Deus e onde a fragilidade não é motivo de exclusão. Disse que muletas, cadeiras de rodas e lágrimas não impedem que as pessoas sejam respeitadas e acolhidas. 1
O papa também reiterou sua oposição a decisões sobre a vida humana baseadas em algoritmos de laboratório, citando tanto embriões quanto idosos. A reportagem da OSV relaciona essa posição à condenação do aborto de pessoas com deficiência. 1 2
A visita a Lourdes fez parte de uma viagem apostólica de quatro dias à França, cujo lema era “Para que o mundo tenha vida”. Antes do encontro com os doentes, Leão elogiou os bispos franceses por se oporem à legalização da eutanásia e do suicídio assistido e os incentivou a perseverar junto a outras pessoas que compartilham esses valores. 1 2
O santuário recebe peregrinos doentes e com deficiência de diferentes lugares; no encontro com a comunidade do Accueil Notre-Dame, estiveram presentes cerca de 5 mil doentes e cuidadores, segundo a EWTN. A missa campal reuniu, conforme a OSV, aproximadamente 150 mil peregrinos. 1 2
Dignidade humana, compaixão e cuidados paliativos diante da eutanásia
A dignidade humana não depende da saúde, da autonomia ou da ausência de sofrimento. Por isso, diante de uma doença grave ou terminal, a compaixão cristã não consiste em provocar a morte, mas em cuidar da pessoa, aliviar sua dor e permanecer ao seu lado. Os cuidados paliativos expressam essa compaixão; a eutanásia, embora às vezes apresentada como resposta compassiva, põe fim à vida para eliminar o sofrimento.
A visão católica fundamenta a dignidade humana no valor intrínseco de cada pessoa, criada à imagem de Deus. A doença, a idade avançada, a inconsciência e a proximidade da morte não diminuem esse valor. Assim, uma vida não se torna menos digna porque está debilitada, depende de outras pessoas ou já não pode ser vivida com saúde e independência.
Isso também protege os doentes de uma pressão, explícita ou implícita, para considerar a própria vida um peso para a família ou para a sociedade. A resposta cristã é afirmar que a pessoa continua sendo valiosa e merece cuidado, mesmo quando não há possibilidade de cura.
A palavra “compaixão” significa sofrer com alguém. Na perspectiva católica, essa atitude exige presença, escuta, ternura e esforço para aliviar o sofrimento — não a intenção de causar a morte. A eutanásia confunde a eliminação da dor com a eliminação de quem sente dor; os cuidados paliativos procuram responder ao sofrimento sem tratar a vida do paciente como algo dispensável.
Os cuidados paliativos podem atender às necessidades físicas, emocionais, psicológicas e espirituais. Além do controle da dor e de outros sintomas, incluem a proximidade de familiares, profissionais e cuidadores. São, portanto, mais do que uma alternativa técnica quando a cura já não é possível: são uma forma concreta de solidariedade e de afirmação da dignidade de quem está morrendo.
A Igreja não ensina que se deva usar todo tratamento disponível, qualquer que seja o custo ou o benefício. É moralmente possível não iniciar ou interromper um tratamento quando ele se tornou inútil ou claramente desproporcionado em relação ao benefício esperado. Isso não significa rejeitar o paciente nem julgar sua vida sem valor: a decisão diz respeito à utilidade e à proporcionalidade da intervenção médica, não à dignidade da pessoa.
Essa distinção ajuda a evitar dois extremos: de um lado, a eutanásia, que tem como finalidade causar a morte; de outro, o chamado encarniçamento terapêutico, isto é, a insistência em tratamentos excessivos ou sem benefício razoável. Mesmo quando um tratamento é suspenso, permanece o dever de cuidar, aliviar o sofrimento e acompanhar o paciente.
A proximidade da morte pode trazer medo, solidão e a sensação de ser um fardo. A resposta cristã não é oferecer uma explicação fácil para todo sofrimento, mas assegurar à pessoa que ela não está abandonada. O Papa Francisco descreveu os cuidados paliativos como sinal de proximidade e solidariedade, capazes de ajudar pacientes e familiares a atravessar a fragilidade e a finitude da vida.
Por isso, defender os cuidados paliativos envolve também apoiar famílias, profissionais de saúde e instituições que acompanham os doentes. A dignidade humana pede que ninguém seja abandonado por estar sofrendo; a compaixão pede que se faça o possível para aliviar esse sofrimento, sem transformar a morte provocada em tratamento.