A reunião na Casa Branca e o encontro dos bispos
Um grupo de bispos dos Estados Unidos se reuniu com autoridades do governo Trump na Casa Branca em 22 de outubro e, mais tarde, rezou pelo presidente Donald Trump no Salão Oval. A oração, conduzida pelo arcebispo James Golka, teve como foco o país e seu governo, em vez de endossar Trump, mas funcionários da Casa Branca divulgaram o vídeo publicamente. As circunstâncias da reunião e a decisão dos bispos de participar geraram debate entre os católicos, com alguns considerando o vídeo um endosso político implícito. O encontro não está na pauta da assembleia plenária de novembro da USCCB, mas espera-se que os bispos conversem informalmente sobre ele, e a conferência poderá ser o local em que as opiniões do Papa Leão serão transmitidas.
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O encontro de 22 de outubro na Casa Branca, em que bispos católicos rezaram pelo presidente Donald Trump no Salão Oval, provocou controvérsia sobre a prudência da visita, o uso político das imagens e a ausência da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB) em sua organização. Os relatos divergem sobre quem articulou o encontro e se os bispos sabiam que seriam filmados; a assembleia plenária da USCCB, marcada para 16 a 19 de novembro, deve ser um espaço para discutir o episódio e suas implicações. 1 2
Um grupo de bispos foi à Casa Branca para uma reunião que, segundo o relato do The Pillar, deveria incluir o secretário de Estado Marco Rubio e o vice-presidente JD Vance. Ao fim da reunião, os bispos foram convidados ao Salão Oval, onde o arcebispo James Golka, de Denver, conduziu uma oração pelos Estados Unidos, pelo governo e pela proteção do país contra o mal. 1
O vídeo dos bispos rezando ao redor de Trump foi divulgado por integrantes da equipe da Casa Branca e circulou nas redes sociais. Golka afirmou que sabia que a oração poderia ser compartilhada e usada politicamente, mas disse que a considerou uma expressão da prática católica de rezar por pessoas e autoridades, independentemente de concordâncias ou divergências. 1
Alguns bispos e comentaristas entenderam que a gravação poderia sugerir apoio político ao presidente, embora a oração não fosse um endosso explícito a Trump. Um dos bispos participantes pediu desculpas por ter comparecido e disse que os presentes foram “manipulados” para uma oportunidade de fotografia política; outros defenderam que rezar com líderes públicos é apropriado. 1 2
A USCCB declarou que não organizou o encontro e que ele não era vinculado à conferência. Especialistas ouvidos pelo National Catholic Reporter discordaram sobre se os bispos deveriam ter consultado a entidade: o jesuíta Tom Reese considerou que a consulta poderia ter alertado para os riscos, enquanto Stephen Colecchi, ex-funcionário da conferência, disse que bispos individuais não são obrigados a passar pela USCCB e que isso talvez não tivesse impedido o uso político das imagens. 2
Também há versões diferentes sobre quem organizou ou articulou a visita. O The Pillar afirmou ter confirmado que Mario Enzler convidou diretamente alguns bispos; participantes disseram ao National Catholic Reporter que receberam convites de representantes ligados à Heritage Foundation, e o arcebispo Jeffrey Grob, de Milwaukee, descreveu o encontro como o segundo de dois encontros organizados pela entidade. A Heritage negou ter organizado a reunião e afirmou que Enzler participou, mas não a preparou; a Casa Branca o descreveu como contato católico com os bispos. 1 2
Enzler é ex-membro da Guarda Suíça e aparece no site da Heritage Foundation como assessor sênior. Sua trajetória também foi questionada: ele deixou o cargo de reitor de uma escola de negócios da Universidade de St. Thomas, em Houston, após alegações de que teria falsificado credenciais acadêmicas; a instituição não oferece doutorados, apesar de ele ter afirmado possuir um. 2
O encontro não está na pauta formal da assembleia de novembro, mas são esperadas conversas entre os bispos sobre a decisão de participar, a atuação da liderança da USCCB e a possibilidade de a conferência ter aconselhado ou desestimulado a visita. O procedimento habitual para contatos de bispos com o Executivo federal passa pelo setor de relações governamentais da conferência, que não participou do planejamento; segundo o The Pillar, alguns dirigentes da USCCB sabiam da reunião antes de ela ocorrer e tinham preocupações sobre seu possível uso político. 1
A discussão ocorre em meio a divergências anteriores entre os bispos sobre como dialogar com diferentes governos. O The Pillar aponta que eventuais críticas à reunião com Trump podem ser comparadas a apelos de alguns bispos por diálogo e “terreno comum” com o governo Biden, enquanto o National Catholic Reporter relaciona o debate às divisões na Igreja e no país, incluindo divergências sobre imigração. 1 2
O The Pillar também prevê que a fala do núncio apostólico nos Estados Unidos, arcebispo Gabriele Caccia, durante a assembleia poderá transmitir, de forma explícita ou implícita, as prioridades do papa Leão XIV sobre o episódio. Os artigos não apresentam uma posição pública do papa sobre a reunião. 1*
A oração episcopal diante da instrumentalização política da religião
A oração episcopal diante da instrumentalização política da religião não significa afastamento da vida pública. Significa que o bispo deve discernir e agir a partir de sua missão própria: conduzir o povo a Deus, anunciar o Evangelho e defender a dignidade humana, sem converter a Igreja em instrumento de partidos, ideologias ou projetos de poder. A oração sustenta essa liberdade pastoral e ajuda a Igreja a servir a todos, em vez de ser apropriada por uma facção.
A oração episcopal não é um refúgio privado diante dos conflitos do mundo. É parte constitutiva do ministério pastoral: o bispo reza pelo povo, ensina-o a rezar e o conduz especialmente à oração litúrgica e à Eucaristia. João Paulo II afirma que os bispos estão mais unidos a Cristo, Bom Pastor, quando conduzem o povo na oração; por isso, o chamado a rezar não pode ser separado da missão episcopal.
Essa oração também orienta a ação. Bento XVI descreve o bispo como alguém que leva diante de Deus as necessidades, alegrias e sofrimentos dos outros, mantendo aberto o contato entre Deus e o mundo. Não se trata, portanto, de ignorar os problemas sociais, mas de enfrentá-los sem reduzir a missão da Igreja a uma disputa por influência.
A Eucaristia mostra de modo especial essa ligação entre culto e serviço. João Paulo II recorda que a oração eucarística alimenta a ação cristã e que os esforços pela paz dependem da graça de Deus; as comunidades locais são chamadas não apenas a invocar a paz, mas também a promovê-la e vivê-la.
O bispo não deve confundir a proclamação do Evangelho com a liderança de uma empresa temporal. Em uma exortação aos bispos, João Paulo II resume essa distinção com clareza:
“não somos peritos de política ou economia, não somos « líderes » em vista de nenhuma empresa temporal, mas ministros do Evangelho.”
Isso não quer dizer que a Igreja deva silenciar quando estão em jogo a dignidade humana, a justiça ou o cuidado dos mais vulneráveis. No mesmo texto, o papa ensina que a vocação episcopal impede o partidarismo e a submissão a ideologias, mas convida o bispo a promover os grandes valores humanos e a estar a serviço de todos, especialmente dos necessitados.
A distinção decisiva é, assim, entre anunciar princípios morais e evangélicos e subordinar a autoridade religiosa a um projeto político. Um bispo pode falar publicamente sobre questões que afetam a vida e a dignidade das pessoas; o risco surge quando a Igreja passa a ser identificada com uma facção, quando o Evangelho é selecionado para legitimar uma ideologia ou quando a autoridade pastoral é usada para tratar adversários políticos como inimigos da fé. A advertência de João Paulo II contra partidarismos e sujeição a sistemas ajuda a compreender esse limite.
A oração é necessária precisamente porque a conjuntura política pode pressionar os pastores a agir por medo, conformismo ou cálculo. Paulo VI, ao tratar de um momento sociopolítico, recomenda “vigiar e rezar” e descreve a oração como fonte de luz para a inteligência e firmeza para a vontade. Também chama à unidade quando estão em jogo a fé e o testemunho cristão, e adverte que esse patrimônio não deve ser acomodado a visões incompatíveis com sua natureza.
Essa unidade, porém, não exige que todos os católicos adotem as mesmas escolhas prudenciais em matérias temporais. O texto dirigido aos bispos brasileiros reconhece que eles podem divergir sobre opções temporais acidentais, ao mesmo tempo que aponta para a comunhão na fé como vínculo mais profundo. Assim, a oração episcopal pode ajudar a evitar tanto a divisão sectária quanto uma falsa unidade construída pela adesão coletiva a uma posição partidária.
Também protege o bispo contra a tentação de fazer da popularidade ou do alinhamento ideológico a medida de seu ministério. Uma exortação aos bispos brasileiros observa que os fiéis esperam pastores que os conduzam à fé e manifestem Cristo por sua santidade e pelo serviço aos que sofrem, não apenas por tendências ideológicas ou sociais. O mesmo texto adverte que a Igreja perderia seu sentido sobrenatural se dirigisse sua estrutura principalmente para assuntos temporais, com o risco de aumentar as divisões sociais.
A oração autêntica não afasta o pastor do povo. Pelo contrário, aproxima-o de suas dores sem permitir que ele use essas dores como ferramenta de propaganda. Um texto pontifício de 2019 descreve o bispo como alguém que apresenta a Jesus pessoas e situações concretas e que, a partir dessa intimidade com Cristo, se torna próximo do povo. Adverte também contra usar Deus como pretexto para erguer muros, romper pontes e semear ódio.
Essa advertência é especialmente pertinente quando a religião é instrumentalizada. O nome de Deus pode ser invocado para legitimar hostilidade, apresentar uma opção política contingente como se fosse a única posição cristã possível ou desqualificar pessoas de outra orientação. A oração episcopal, se enraizada em Cristo, deve conduzir ao contrário: à verdade, à caridade e à defesa da dignidade das pessoas, sem transformar o altar em palanque nem a fé em marca de grupo. A Igreja, recorda João XXIII, não combate com armas de violência, mas com caridade, oração e sacrifício.
Há também uma distinção importante entre a missão do bispo e a responsabilidade dos leigos. Os leigos são chamados a atuar no coração do mundo e a ordenar as realidades temporais ao Reino de Deus; esperam dos pastores orientação e sustento espiritual, mas também o espaço legítimo de liberdade para seu compromisso na sociedade, sem clericalização. A oração episcopal não deve substituir essa responsabilidade nem transformar o bispo em dirigente político. Deve formar consciências e sustentar os fiéis para que ajam segundo o Evangelho em suas próprias circunstâncias.
Em suma, diante da instrumentalização política da religião, a oração episcopal é fonte de discernimento, liberdade e serviço. Ela não autoriza a Igreja a fugir das questões públicas; ajuda-a a abordá-las sem se confundir com partidos ou ideologias. O bispo reza para anunciar Cristo com clareza, promover a dignidade humana e permanecer próximo de todos — sobretudo dos mais vulneráveis — sem permitir que Deus seja usado para dividir, dominar ou semear ódio.